Rastreamento mamográfico despenca no Brasil


Estudo revela que a queda foi de mais de 20% no ano passado em relação a 2018.

 Já este ano a pandemia deve agravar o cenário

   Se o rastreamento mamográfico das mulheres atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil já era preocupante, em 2019 houve nova redução e, em 2020, com a pandemia deve piorar. Estudo realizado por pesquisadores da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) em parceria com a Rede Brasileira de Pesquisa em Mastologia mostrou que o percentual de cobertura mamográfica em 2019 foi 21,9%, menor do que o ano anterior e bem abaixo dos 70% recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). As piores taxas foram verificadas nos estados do Amapá (0,6%) e Distrito Federal (4,9%), enquanto os melhores índices foram registrados nos estados do Paraná (29,7%) e Alagoas (29,6%). Isso significa que o número de mamografias realizadas no Brasil em 2019 pelo SUS correspondeu a quase ¼ da necessidade do país. A cobertura do exame foi bem abaixo da população alvo e sendo acentuadamente diferente entre os vários estados brasileiros. Com a pandemia, esses números tendem a despencar ainda mais em 2020 e o sinal de alerta está aceso.

De acordo com o coordenador da pesquisa e membro da Sociedade Brasileira de Mastologia, Ruffo de Freitas Junior, neste ano o diagnóstico e o tratamento da doença ficaram prejudicados por conta do isolamento social. “Houve uma grande redução no número de exames tanto para rastreamento quanto para diagnostico. A maior redução aconteceu entre março e abril, com recuperação tímida depois. As pacientes, principalmente as acima dos 60 anos, também deixaram de comparecer às consultas, evitando que o câncer fosse diagnosticado logo no início e, pior, permitindo que houvesse um crescimento desses tumores”, explica o mastologista.

Segundo o pesquisador, em relação ao tratamento, o atual contexto provocou ainda a postergação de cirurgias, sendo substituídas por quimioterapia ou hormonioterapia até que pudesse ocorrer o procedimento cirúrgico. “As reconstruções mamárias e as cirurgias maiores também foram adiadas, fazendo com que as pacientes não pudessem ter suas mamas reconstruídas no mesmo ato da cirurgia de remoção das mamas”, afirma.

Desde 2013, o mastologista, juntamente com uma equipe de pesquisadores, acompanha os números do rastreamento mamográfico realizado no país pelo sistema do Datasus. E a preocupação só aumenta, já que o percentual de cobertura da faixa etária de 50 a 69 anos (recomendada pelo Ministério da Saúde) cai a cada ano: 24,8% em 2013; 24,4% em 2015; 24,1% em 2017; 22,3% em 2018 e 21,9% em 2019.

Presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia, Dr. Vilmar Marques, reitera que a entidade considera que o rastreamento mamográfico tem sido o melhor método para detectar tumores precoces e reduzir a mortalidade por câncer de mama, dados comprovados por diferentes estudos. “No Brasil, o número de mulheres que realiza mamografia pelo sistema público tem ficado muito aquém das recomendações internacionais, mas, é preciso que a população saiba que a prevenção é o melhor caminho para o diagnóstico precoce e que pode fazer toda a diferença  no potencial de cura”, alerta o mastologista, completando que o mote da SBM para este Outubro Rosa será “Quanto Antes Melhor” para lembrar a importância de manter hábitos saudáveis, como atividade física e boa alimentação, além de exames e consultas em dia.

 

Dados do Estudo

Os dados do estudo referem-se ao número de exames realizados em 2019, coletados do Sistema de Informações Ambulatorial (SIA) do DATASUS, de acordo com os códigos de procedimento 0204030030 (Mamografia) e 0204030188 (Mamografia Bilateral para Triagem). Já o número de exames esperados foi calculado de acordo com o número de mulheres na faixa etária de 50 a 69 anos e as recomendações do INCA para rastreamento bienal (BRASIL, 2019). Para o cálculo do número de exames esperados considerou-se a população de 50 a 69 anos, recomendada pelo National Cancer e aprovado pelo Instituto José Alencar Gomes da Silva (INCA).

Abaixo, segue tabela com os números de mamografias esperadas e as de fato realizadas nas mulheres da faixa etária de 50 a 69 anos em todos os estados do Brasil.