Pandemia altera tratamento de câncer de mama no Brasil


Estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Mastologia mostra que 50% dos médicos postergaram cirurgias e começaram com medicação oral

 

Por conta da pandemia de Covid-19, mastologistas de todo o Brasil modificaram, pela primeira vez nas últimas duas décadas, protocolos históricos de tratamento do câncer de mama em pacientes já diagnosticadas. A constatação faz parte de um estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Mastologista (SBM), publicado na revista científica Breast Cancer Research and Treatment, que ouviu 530 profissionais especializados na saúde das mamas. A principal alteração foi em relação às pacientes em caso inicial, já que até cerca de 50% dos médicos, dependendo do subtipo da doença, postergaram as cirurgias para começar com medicação oral (hormonioterapia), o que geralmente é feito apenas nos casos de exceção.

 

De acordo com o Dr. Francisco Pimentel, Diretor do Departamento de Relações Internacionais da SBM e coordenador da pesquisa, com os resultados do estudo, a expectativa dos médicos é de que os próximos meses serão difíceis para retornar os tratamentos habituais, especialmente os das pacientes que não têm acesso à rede de saúde suplementar e terão que recorrer ao Sistema Único de Saúde (SUS), já historicamente afetado e agora mais pressionado com a pandemia.

 

Segundo ele, o estudo também mostrou que nos tumores de mais agressivos, a maioria dos mastologistas entrevistados optou por iniciar o tratamento por quimioterapia, mesmo em tumores com dimensões muito reduzidas, o que pode configurar medida  desnecessária em alguns casos. Em relação à cirurgia de reconstrução mamária, cerca de 1/3 dos mastologistas contraindicariam reconstrução imediata, preferindo realizá-la posteriormente, o que pode aumentar a chamada “fila de espera da reconstrução” em um país no qual as taxas já são reduzidas – atualmente apenas cerca de 30% das mulheres realizam reconstrução pelo SUS.

 

O mastologista ressalta que o objetivo do estudo foi entender o impacto da pandemia no tratamento e se os mastologistas brasileiros seguiam a linha de recomendações emergenciais elaboradoras por experts de todo o mundo, que sugere postergar cirurgias e modificar o tratamento da doença com o intuito principal de manter leitos e insumos hospitalares. “A grande questão, que inclusive foi crítica da comunidade científica mundial, é que a alteração dessas condutas de tratamento bem estabelecidas pode impactar negativamente no futuro. Isso porque o câncer de mama inicial pode ser grave, e precisa ser prontamente tratado no início. Modificar o tratamento pode impactar no desfecho clínico destas pacientes, visto que, na maioria dos casos, o tratamento se inicia por cirurgia”, explica ele, completando que o resultado mostrou que 70% dos mastologistas mudaram suas condutas.

 

Ele lembra que a entidade de um modo geral também está preocupada com as mulheres que deixaram de realizar a mamografia durante a pandemia, o que pode piorar este cenário. “A interrupção e retorno lento dos serviços neste período significará que teremos um atraso em diagnósticos com possível aumento do número de tumores em estágio avançado”, completa Pimentel.

 

A Sociedade Brasileira de Mastologia reitera que preconiza para todos os mastologistas em todo o território nacional as técnicas e procedimentos mais avançados e praticados no mundo, priorizando sempre o compromisso pela ética e excelência científica em prol da melhor qualidade de vida e tratamento da mulher brasileira.

 

 

ORIGINAL DR PIMENTEL

 

Um novo coronavírus (SARS-COV-2) causou uma emergência global, sendo declarado “pandemia” pela Organização Mundial de Saúde (OMS) (1). A transmissão e a rápida progressão da doença (COVID-19) implica que um grande número de pessoas serão infectadas e necessitarão de internamento hospitalar e admissão em unidades de terapia intensiva. No início de maio, quase 170 mil pessoas tinham confirmação da doença no Brasil, sendo o sudeste e o nordeste as regiões mais afetadas (2). O reconhecimento da seriedade da pandemia resultou em implementação de medidas de distanciamento, além de ajustes nos sistemas de  saúde ao redor do mundo, com o intuito de manter leitos e insumos hospitalares para estas pessoas, afetando consequentemente o manejo de muitas doenças crônicas, incluindo o câncer de mama, o mais frequente entre as mulheres (3). Para completar, relatos iniciais sugeriram que pacientes com câncer teriam maior risco de contrair a doença e ter sintomas severos de COVID-19, possivelmente devido ao estado de imunossupressão resultante do tratamento (4). Recomendações emergenciais para o tratamento do câncer de mama foram elaboradas por experts ao redor do mundo, sugerindo postergar cirurgias e modificar o tratamento da doença com o intuito principal de manter leitos e insumos hospitalares (5,6). A maioria desses “novos guidelines” não obtiveram unanimidade na comunidade cientifica (7):  muitos criticaram que a alteração de protocolos históricos acerca do tratamento do câncer de mama, mesmo durante a pandemia, poderia ter impacto negativo, pois o câncer de mama é uma grave mas curável em estágio inicial na maioria dos casos. Modificar o tratamento poderia impactar no desfecho clínicos destas pacientes, visto que, na maioria dos casos, o tratamento se inicia por cirurgia.

 

No início de maio, mastologistas da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), conduziram um estudo para averiguar o impacto que a pandemia teve no tratamento do câncer de mama. Este estudo foi enviado a OMS e publicado em uma importante revista científica internacional, dedicada a pesquisas do câncer de mama (8). Os resultados evidenciaram que entre os 503 mastologistas pesquisados, cerca de 70% mudaram, de alguma forma, sua maneira de tratar o câncer de mama. Naqueles casos de câncer de mama com tumor “hormônio dependente”, com melhor prognóstico e portanto mais curável, quase 50% dos mastologistas recomendaram postergar cirurgia e iniciar tratamento com medicação oral (hormonioterapia), geralmente usado em casos de exceção. Nos tumores de maior agressividade, a maioria optou por iniciar tratamento por quimioterapia, mesmo em tumores com dimensões muitas reduzidas, o que pode implicar em tratamento desnecessário em alguns casos. Em relação a cirurgia de reconstrução mamária, cerca de 1/3 dos mastologistas contra-indicariam reconstrução imediata, preferindo realiza-la posteriormente, implicando em possível aumento da chamada “fila de espera da reconstrução” em um país onde as taxas já são reduzidas: no Brasil, apenas cerca de 30% das mulheres realizam reconstrução.

 

Podemos concluir que a pandemia de COVID-19 afetou significativamente o tratamento do câncer de mama no Brasil. Os resultados deste estudo nos levam a pensar que teremos meses difíceis para “retornar” o tratamento habitual dessas pacientes, especialmente entre aquelas pacientes sem acesso a rede de saúde suplementar, causando maior pressão no Sistema Único de Saúde, já historicamente afetado e agora mais pressionado com a pandemia. Vale salientar que este estudo se refere apenas ao tratamento de casos já diagnosticados. Durante a pandemia, milhares de mulheres deixaram de realizar seu exame preventivo (mamografia), podendo piorar ainda este cenário.

 

  1. World Health Organization (2020) WHO Director-General’s opening remarks at the media briefing on COVID-19 – 11 March 2020. (Director-General Speeches). https://www.who.int Accessed 14 May 2020
  2. Coronavirus Brasil. Painel geral. https://www.covid.saude.gov.br. Accessed 28 July 2020.
  3. Fineberg HV (2020) Ten weeks to crush the curve. N Engl J Med 382:e37. https://doi.org/10.1056/NEJMe2007263
  4. Shah UA (2020) Cancer and coronavirus disease 2019 (COVID-19): facing the “C Words”. JAMA Oncol. https://doi.org/10.1001/jamaoncol.2020.1848
  5. Dietz JR, Moran MS, Isakoff SJ, et al (2020) Recommendations for prioritization, treatment, and triage of breast cancer patients during the COVID-19 pandemic. The COVID-19 Pandemic Breast Cancer Consortium. Breast Cancer Res Treat 181:487‐497. https://doi.org/10.1007/s10549-020-05644-z
  6. Al-Shamsi HO, Alhazzani W, Alhuraiji A, et al (2020) A practical approach to the management of cancer patients during the novel coronavirus disease 2019 (COVID-19) pandemic: an international collaborative group. Oncologist. https://doi.org/10.1634/theoncologist.2020-0213
  7. 1Garg PK, Kaul P, Choudhary D, et al.  Discordance of COVID‐19 guidelines for patients with cancer: a systematic review. J Surg Oncol. 2020. https://doi.org/10.1002/jso.26110
  8. Cavalcante, F.P., Novita, G.G., Millen, E.C. et al.Management of early breast cancer during the COVID-19 pandemic in Brazil. Breast Cancer Res Treat (2020). https://doi.org/10.1007/s10549-020-05877-y