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A testosterona e seus efeitos na saúde das mamas

terça-feira | 15 de setembro de 2020

Muitas mulheres desconhecem o potente efeito da Testosterona sobre o câncer de mama. A Testosterona aumenta células T e estas, por sua vez, matam as células cancerígenas. Será mesmo simples assim? Vamos ver o que diz a literatura médica.

 É indiscutível que o hormônio Testosterona exerce um papel importante na saúde feminina e que níveis adequados de Testosterona são essenciais para a saúde física e mental, para a função imune, para o controle glicêmico e redução da inflamação, os quais, por si só, podem afetar a ocorrência do câncer de mama.

Quando buscamos na literatura médica a relação entre Testosterona e câncer de mama, encontramos resultados conflitantes, porém quando os estudos são ajustados para câncer de mama receptor estrogênico positivo, há provas abundantes de que os andrógenos (tendo a Testosterona como principal representante) protegem a mama. Além disso, a maioria dos estudos epidemiológicos não aborda a conexão ‘Obesidade-insulina, Testosterona’. A obesidade e a insulina aumentam a inflamação e exercem efeitos diretos e indiretos no desenvolvimento do câncer de mama através de várias vias, incluindo o aumento da expressão da enzima aromatase. Além disso, a insulina estimula a produção de Testosterona (a níveis supra fisiológicos muitas vezes). Também devemos considerar que há uma ação entre células e dentro das células, algo difícil de medir com os exames laboratoriais.

Estudos in vitro e em primatas sugerem que um efeito direto no RECEPTOR ANDROGÊNICO (AR) é antiproliferativo, aumentando a apoptose (morte celular programada) e inibe a atividade do receptor de estrogênio alfa, inibindo, portanto o crescimento celular do câncer de mama.

Cerca de 80% a 85% dos tumores de mama expressam receptores de androgênios e este fator está associado a características tumorais mais favoráveis e melhor prognóstico, incluindo aumento no tempo livre de doença e sobrevida global.

No entanto, a Testosterona pode ser aromatizada (conversão pela enzima aromatase) para estradiol (E2), o que aumenta a proliferação e, consequentemente, o risco para câncer de mama. Aumento da expressão da enzima aromatase e um desequilíbrio na proporção de estrogênios e androgênios causam impactos na homeostase da mama. E em que situações a aromatase está super expressa? Por exemplo, na obesidade, na presença de resistência à insulina e na presença de inflamação crônica de baixo grau, além das células cancerígenas “aprenderem” a sintetizar a própria aromatase.

Recente estudo prospectivo suporta um papel da Testosterona na prevenção do câncer de mama tanto na pré quanto na pós menopausa. Mulheres com sintomas de deficiência desse hormônio tratados com doses farmacológicas de Testosterona (T) sozinha ou em combinação com Anastrozol (A), entregue por implantes subcutâneos, tiveram uma redução na incidência de câncer de mama. Além disso, T combinado com A efetivamente tratou os sintomas de deficiência de hormônio nas sobreviventes do câncer de mama e não foi associada com doença recorrente. No entanto, ainda se considera que há uma falta de estudos prospectivos e estudos randomizados para abordar esta questão.

MUITO cuidado deve ser tomado em determinadas linhas de células do câncer de mama que podem ser estimuladas por andrógenos: por exemplo, células que não expressam receptores de estrogênios (ER negativos) e HER- 2 positivo ou em tumores que podem se tornar resistentes à terapia. Além disso, não há evidências suficientes para extrapolar os resultados com implantes subcutâneos para outras dosagens e vias de administração, incluindo pílulas orais e tópicas do gel.

O papel da Testosterona sobre o sistema imunológico ainda tem controversas, uma vez que parece ter um efeito evidente na autoimunidade (lúpus, artrite, etc), mas pode atuar como um potencial promotor do crescimento de outros tumores. Então, não está correto dizer simplesmente que a Testosterona aumenta as células T, bem como não está correto dizer que as células T matam as células cancerígenas.

 O microambiente tumoral é muito complexo, devendo ser reconhecido e tratado como tal.

Além disso, nem todo câncer de mama é igual e cada paciente é ÚNICA!!

 

* Ana Carolina Marcondes Machado é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Mastologia 

 

 

Referências:  
Testosterone and breast cancer prevention 

PMID: 26160683          2015 

Minireview: The androgen receptor in breast tissues: growth inhibitor, tumor suppressor, oncogene? 

PMID: 22745190           2012 

Suppressive effects of androgens on the immune system 

PMID: 25708485         2015