Não, eles não são pessoas pesadas, tristes, destas que se curvam frente aos desafios de doenças ou aos desatinos de uma sociedade injusta, ainda que seja uma realidade com a qual se deparam diariamente. Nem sempre já viveram a experiência de ter câncer ou de ter perdido um ser querido por causa dele, embora muitos tenham um histórico assim. Voluntários não resgatam necessariamente culpas ou mágoas do passado.
Ler para quem não enxerga, ensinar coisas para as crianças, cuidar da cultura, dos índios, das matas, dos bichos, visitar presos ou enfermarias de hospitais pode não ter nada a ver com um desejo de reconhecimento, com se habilitar a uma menção honrosa pelo elevado espírito cívico. Pode também não estar ligado ao propósito de ganhar como bônus o céu, no qual, muitas vezes, nem se acredita.
Fala-se hoje, no Brasil, em 20 milhões de voluntários. O que leva tanta gente a colocar disponíveis, a serviço do próximo, seus mais preciosos bens: tempo, talento e trabalho? O que faz com que alguém que trabalha como louco, exibe uma saúde de ferro e não tem queixas da vida, eu me pergunto, o que faz com que se envolva, de livre e espontânea vontade, com os sofrimentos, inquietações, dores e desesperanças alheias?
Do mesmo modo, quero descobrir porque uma mulher, ou melhor, tantas mulheres escolhem reviver suas próprias batalhas visitando hospitais onde há doentes com histórias semelhantes à sua? Por que não esquecer, absorver, ocultar, ir em frente, sei lá. Não seria mais simples?
Esta é a resposta que tenho buscado nos voluntários incríveis que conheci. É a pergunta que me faço, agora que também mergulhei de cabeça no voluntariado. Porque voluntariado é assim. Ou você se mistura, se esquece, mergulha de cabeça, se envolve, se compromete com pessoas e causas até a medula, ou não vai dar pé, melhor deletar a ideia.
Sem se apaixonar pelo que faz, nada vai mudar em você, nem na vida de quem você pretende ajudar. Não haverá ganho algum, quando ele, na verdade, surge democraticamente para os dois lados. Sem paixão e compromisso perdeu o sentido, já que ser voluntário é justamente isto: acreditar, transformar, fazer a diferença, tornar-se importante na vida de alguém, seja este alguém um idoso, um gato, uma criança, uma mulher maltratada... Para não falar em quem precisa de proteção, de informações, de escola, de carinho, de lazer, da natureza preservada ou de justiça.
Os ideais são variados, tanto quanto as razões que levam pessoas a arregaçar as mangas e tentar fazer o possível, a sua parte. Olho para os voluntários à minha volta. É um alegre batalhão de jovens de 20, 45, 70 anos ou mais até. São dentistas, psicólogos, donas de casa, professores, bancários aposentados ou não, fisioterapeutas, estudantes, advogados, pedreiros, bordadeiras, médicos... Tem também os que chegam de mansinho argumentando sua falta total de habilidades.
Entre tantas diferenças, tento identificar um traço comum. Será cidadania, compaixão, solidariedade? Melhor falar de força, bondade, caridade, coragem? Não sei o que os motiva nesta ação de ajudar. Não há estáticas ou pesquisas sobre o assunto, mas desconfio de que, à noite, eles simplesmente põem a cabeça no travesseiro e dormem mais tranqüilos do que as outras pessoas.
Longe da perfeição e da santidade, o voluntário é um batalhador teimoso que se nega a cruzar os braços, se recusa a aceitar as coisas “como elas são” e se enche de energia para tentar transformá-las. Transformar o mundo? Nem pensar. Mas um átomo, um milímetro, a vida de alguém. Isso dá para mudar, sim, para tornar melhor. E basta para que o seu dia faça sentido e tenha valido a pena.
Então, bons sonhos voluntários de todo o país. Ainda bem que vocês existem!
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